Sob Pressão retorna de olho nos noticiários


A primeira sequência do retorno de Sob Pressão mostra Evandro (Julio Andrade) e Carolina (Marjorie Estiano) presenciando mais uma tragédia: um morador de rua, em surto, esfaqueia gratuitamente um homem que está dentro do carro, esperando um sinal vermelho apagar. A polícia atira no morador de rua e seguem os dois para o hospital, ele e a vítima da facada. O episódio é apenas o primeiro de uma série de alusões ao que circulou pelos telejornais durante esse longo hiato da série, desde o fim da terceira temporada. O episódio aconteceu de verdade no Rio de Janeiro e resultou na morte precoce de um jovem, na frente da noiva.

Estamos acostumados a ver Evandro e Carolina no meio das tormentas que ilustram a vida do brasileiro que precisa do serviço público de saúde. Lucas Paraízo, autor da série, estabeleceu um ritmo muito seguro para conduzir as temporadas e a cada pequeno grupo de episódios, ele providencia mais uma situação de extrema tensão onde os dois protagonistas são colocados, não só para que vejamos tudo pela ótica deles, como também para manter o título da série sob proteção, em nome de sua relevância, inclusive.

Os dois personagens já passaram por muitos apertos nas mãos dos roteiros. Foi especialmente satisfatório ver que tanto Evandro quanto Carolina começam essa nova temporada mais leves, longe daquele quase fetiche pela miséria emocional na qual foram jogados nos três anos anteriores. Na terceira temporada, aliás, isso se agravou quando – pensando que aquele era realmente um último ano – Paraízo retrocedeu a evolução do casal para criar uma ruptura que desse aos últimos episódios alguma ideia de grandiosidade. Quando colocado em perspectiva com a nova temporada, todo o arco final da terceira parece ainda mais deslocado.

Contudo, é um novo começo, um novo hospital e uma abertura para novas abordagens. Sob Pressão nunca conseguiu fugir muito do que já vimos em séries médicas, mas a maior qualidade da produção está em saber usar clichês a seu próprio favor. Por isso, as semelhanças, o acesso direto à “cartilha” das produções médicas, nunca atrapalhou o resultado final. O texto sempre foi competente, simples, mas honesto e bem escrito. A direção de Andrucha Waddington, com planos longos, que seguem os espaços pela ótica dos personagens, também ajudou a equilibrar eventuais obviedades. Enfim, todo mundo envolvido na série sabe o que está fazendo.

Sob Hipertensão Tentando, inclusive, escapar um pouco do que já se espera, os personagens foram colocados num novo hospital, maior do que o anterior, em que a sensação é de que o trabalho poderá ser um pouquinho mais fácil. É claro que aos poucos vamos percebendo que apesar de terem mais espaço, os médicos continuam enfrentando limitações que podem estar no limiar da vida e da morte. Pelo menos nessa estreia, foi reconfortante ver que os roteiros blindaram a narrativa de uma necessidade de imprimir essas dificuldades na psique nos personagens. Faz bem ver que Evandro e Carolina conseguem passar por tudo aquilo sem perder otimismo. Sublinhar os problemas é muito importante, mas mostrar que eles não quebram nosso espírito também é. Ainda é cedo para saber como as coisas vão se desenvolver no novo hospital, mas já foram anunciadas tensões entre Evandro e Charles (Pablo Sanábio) por conta da hierarquia que os separa; e entre Vera (Drica Moraes) e Mauro (David Junior), por conta de divergências de opiniões. Apesar de carismáticos, os coadjuvantes de Sob Pressão sempre saíram perdendo na balança que dividia o tempo de tela dos elementos semanais. Há muito potencial não explorado em todos eles (incluindo o Décio, de Bruno Garcia), que poderiam sair ganhando caso a estrutura dos episódios abandonasse um pouco o teor procedural e abraçasse a tendência contemporânea de dar enfoque ocasional a personagens específicos, como em monólogos não-oficiais.

Talvez os poucos 35 minutos da estreia também tenham pesado. A facada na rua, a problemática da fome que voltou a assolar nosso país e até o sufocamento de um jovem preto por um policial, tudo está ali, meio que espremido nesse tempo, sem uma “respiração” adequada e sem o aprofundamento que poderia fazer a diferença. Muitas vezes, aliás, Sob Pressão só não é melhor porque não tem tempo para isso. É uma obra com o tempo que episódios tinham nos anos 90, mas com um tratamento que implora pelos 60 minutos que temos nas boas séries de agora. E sem esse tempo o perigo é que a alusão pela alusão, resulte em obviedade.

Mesmo assim, saber que teremos toda uma temporada pela frente e uma outra já garantida, traz um acalento diante de toda a superficialidade dramática que ronda o mundo das séries globais (Ilha de Ferro, estou falando com você). Sob Pressão é uma das melhores atrações da nossa TV aberta e tem uma esteira gigante de potencial por onde pode se refestelar.


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